sexta-feira, 9 de abril de 2010

O Haiti é aqui...

O assustador número de mortes que não pára de crescer em Niterói, uma das cidades até então consideradas de melhor qualidade de vida no Estado do Rio de Janeiro, nos obriga a uma reflexão sobre a imagem que os governantes tentam passar do município e a dura realidade das áreas periféricas, favelas e bairros da zona norte. Por parte das autoridades, daqueles que deveriam implementar e propor soluções, até agora se ouviram apenas respostas prontas e evasivas. São declarações que, inevitavelmente, responsabilizam os pobres pela tragédia que já contabilizou centena de mortos e a cada hora que passa, o número aumenta.Quem mandou morar em área de risco?é a resposta mais comum e previsível. Ora, ninguém espera que um prefeito ou governador tenha poderes de super-herói. Que resolva as mazelas do adensamento das cidades e da falta de estrutura urbana com varinha de condão. Não se trata disso. Mas que, pelo menos, lance um olhar para os menos afortunados, elabore projetos de contenção de encostas, melhore a limpeza e o recolhimento de lixo nessas áreas, discuta a construção de casas populares e desenvolva propostas de urbanização e transporte de massa.No caso de Niterói, lugar onde vivo há 54 anos, onde, além de mim, nasceram meus pais e também meus filhos (três gerações) posso afirmar com pesar, mas sem risco de cometer injustiça: "as chuvas derrubaram os muros que separam as áreas nobres dos morros, sempre escondidos, camuflados, completamente ignorados pelas políticas públicas desta cidade."Quem vive como eu na Zona Sul de Niterói tem dificuldade de enxergar as favelas.Elas costumam ficar encobertas por muros, por árvores. A impressão que se tem e omarketing que se vende da cidade é de que Niterói é uma região de classemédia e classe média alta, de pessoas brancas, muitas de sobrenome empolado,descendentes de europeus, com razoável poder aquisitivo e bom nível de instrução. A maioria dos niteroienses gosta de acreditar nessa farsa...Mas basta chegar ao centro da cidade. Já no terminal de ônibus o asfaltoestá cheio de buracos, enquanto a Praia de Icaraí está sempre impecável. A iluminação na Zona Sul está ótima. Os jardins foram renovados. No entanto, atragédia que deixou à mostra as vísceras da cidade, que se orgulhava emalardear sua alta qualidade de vida, dispensa palavras. Não é preciso dizer que existem regiões completamente esquecidas, há anos,onde as reivindicações dos moradores ficam nas gavetas.No Haiti, recentemente, morreram 200 mil pessoas, naquele que foi considerado o mais trágico desastre natural já enfrentado pela ONU, em 60 anos de existência. Maior que o tsunami na Ásia, em 2004. O terremoto do Haiti, na escala Ritcher, foi menor que o do Chile. Mas o número de mortos foi infinitamente maior. Lá, assistimos a população desasperada resgatando suas vítimas com as próprias mãos...e por acaso não foi isso que assitimos aqui bem pertinho de nós???Onde estava a Defesa Civil de Niterói ???E o plano de contingência, existe???E o secretário de Defesa civil, que ninguém viu!?!?Pelo menos no Haiti o exército brasileiro estava atuando no resgate dos vitimizados...e aqui? Pq não atuaram???Então, será que a natureza mais uma vez vai levar a culpa dessa catástrofe que se abateu sobre nós???. Esta não pode ser uma tragédia sem culpados. Hoje eu estou com vergonha da minha cidade. Do desgoverno da minha cidade. Da invisibilidade a que têm sido relegados os mais pobres e os bairros periféricos.
A chuva derrubou muitos muros......
descobrimos que o Haiti também é aqui.
E agora, Sr. Prefeito?

SERÁ QUE OS DESASTRES SÃO MESMO NATURAIS?

“Desastres não são naturais.
Eles são o resultado da ação de uma sociedade que não se mobilizou para preveni-los. Um desastre é diagnóstico de uma falha institucional, de uma falha da sociedade naquele espaço e tempo. Eles são o resultado da ação de uma sociedade que não se mobilizou para preveni-los.
Há cada ano, cerca de 1,4 mil decretos de emergência por desastres reconhecidos pelo governo federal no país, ou seja, entre um quarto e um quinto do total de municípios. Dados da Secretaria de Defesa Civil apontam que as mesmas cidades muitas vezes passam por situações de emergência relacionadas à seca e à chuva em um único ano. “Isso mostra que este município não sabe lidar com a gestão de água. Não é apenas um processo de degradação ambiental ou acelerado empobrecimento das famílias. Significa que o processo de desenvolvimento do Brasil está em risco. Há uma questão de fragilidade institucional, de autoridades que não percebem os riscos”, os custos econômicos da falta de preparação e prevenção para as situações em que os fenômenos naturais tornam-se desastres, isto é, causam sofrimento humano. Há dinheiro publico jogado fora nesse país, sempre que a sociedade não resolve os problemas que causam o desastre, e atua apenas após a ocorrência de danos, ela contribui diretamente para a concretização das tragédias.